Quando a reação das pessoas coincide com o que foi por nós comentado no informativo da semana passada, é porque realmente estávamos certos ao tomarmos tal iniciativa. Recebi cumprimentos na rua e através de e-mail dando conta do que foi sentido não foi um gesto solitário, mas sim compartilhado por um sem número de viventes de nossa Araguari vivenciando os mesmos fatos.
Assim encontrei lenitivo para transcrever aos leitores, sobre o que se passa numa cidade onde todos mandam um pouco e outros tantos poucos não se inteiram da real condição da civilidade urbana.
O pedestre araguarino foi realmente excluído do rol daqueles que têm direito e também deveres. Sem terem seus direitos obedecidos nas faixas exclusivas para pedestres, só recebendo a “dádiva” da passagem nos locais onde existem as faixas e um semáforo apontando verde para os mesmos. Nas demais situações onde quer que se vá, o veículo passará por cima mesmo se o pedestre insistir. Estará liquidado, vestirá o pijama de madeira.
Assim, o que ocorre? Sem lugar de passagem que o beneficie, o pedestre, passa a utilizar toda a extensão da rua como ponto de passagem, deixando de lado seus deveres (usar a faixa), pois não existindo respeito ao seu uso, qualquer local dá no mesmo. Generaliza a desordem e decompõem-se os deveres. Estamos vendo a olhos vistos uma degradação a mais contra nossos direitos.
E mais, se existir uma construção de obra civil, então a coisa fica pior, o individuo fica como se estivesse em um beco sem saída. A calçada pública está totalmente tomada por tapumes e entulhos, ou com areia e pedra britada, que também ocupa grande parte da rua. Assim o infeliz tem que amargar o risco de enfrentar a rua com as motos, bicicletas e veículos passando raspando em suas costas. Imagino que o código de obras da cidade tenha uma norma ou uma conduta para tais casos. Não se pode ocupar inteiramente o calçamento e a via pública desta maneira, deve existir um limite de espaço para que a construção possa ocupar durante sua execução. O que falta é a iniciativa punitiva dos maus exemplos, multa nessa gente que não está nem aí para o povo!
Assim se formos descrevendo as situações que ocorrem ao nosso redor, nem com um ano de coluna seriamos capazes de citar tudo. Entretanto existe um ditado que monta aos tempos do Brasil Colônia, naquele em que o imperador Dom Pedro II ainda muito jovem, não tinha maioridade suficiente para comandar os desígnios da nação, e aqueles que assumiam cargos correlatos de fato mandavam cada um a sua maneira, cada qual ao seu modo. Estando a Corte Imperial estabelecida no Rio de Janeiro, existia uma casa chefiada por uma cafetina de nome Joana, onde os homens que realmente mandavam no país costumavam se encontrar em suas noitadas. Como esses homens mandavam e desmandavam no país, a frase casa da mãe Joana ficou conhecida como sinônimo de lugar no qual ninguém manda.
É o que tem acontecido por aqui, onde todos mandam ninguém acaba realmente mandando, o que se constitui num castigo para nossa população, que passa a achar que também pode mandar. Mandar no quê...? Se nem mesmo temos para quem se queixar... então direi reclamem “ao Bispo”?
O que me remete a expressão do dito popular que teve seu nascedouro no tempo do Império: VÁ SE QUEIXAR AO BISPO! Naquela época a fertilidade de uma mulher era atributo fundamental para o casamento, afinal, a ordem era povoar as novas terras. A Igreja permitia que, antes do casamento, os noivos mantivessem relações sexuais, pois era a única maneira do rapaz descobrir se a moça era fértil. E imaginem o que acontecia na maioria das vezes? O noivo fugia depois da relação para não ter que se casar. A mocinha, desolada, ia se queixar ao Bispo, que mandava homens capturar o tal espertinho.
Existem coisas capazes de gerar um sentimento de desilusão sem fim, de um desgosto real, que dói como algo arrancado da própria carne, como quando nos deparamos com um ser humano, de nossa própria raça, maltrapilho, sujo, desiludido e perdido como uma nau sem rumo na própria vida. É talvez o mesmo sentimento que bate em nosso peito ao andar por toda nossa Araguari e sentir como a cidade está maltratada, malvestida em suas calçadas tão destroçadas e cheias de buracos, quando nem existe nada, senão o mato tomando conta, e aí quando estão calçadas e vestidas, estão cheias de pregas e lombadas, feitas para só para os acessos de veículos.
Um cidadão idoso não transita por elas, só anda pela rua sofrendo os riscos de ser atropelado, ou vive caindo aos tropeços e se sujeitando a quebra dos seus ossos, agora mais ainda obrigados a andar num asfalto tipo colcha de retalhos, buracos sobre buracos, tapados por uma sucessão de cogumelos negros sobressaídos do antigo leito asfáltico. Estão as ruas cobertas de calombos, como feridas abertas com as cascas da cicatrização, mas que não encontram nunca a cura, pois falta o trato da prevenção e da manutenção corretiva.
Fiz a comparação entre o maltrapilho e a maltrapilha, para que possamos ver como ela está enegrecida, mal acabada, mal vestida, sem maquiagem e sem viço, sem beleza, é uma pena a gente ver que o cidadão está conformado, desiludido, nem tem mais forças para dar o brilho de uma demão de tinta em seus muros e fachadas.
Reagir é sair da letargia, é pedir para olharem e fazerem alguma coisa antes que Araguari pareça mais ainda uma cidade fantasma.
Já notaram que a degradação fez surgir novos espécimes da flora nas ruas de nossa cidade? Tem um matinho verde, viçoso, nascido nas gretas das sarjetas de vários locais de Araguari, ou mesmos nas calçadas desnudas e canteiros e até mesmo em rachaduras de muros, (por todo lado), que fazem florescer mimosas flores brancas com o centro amarelo, tais quais gotas brilhantes de um pranto que a cidade apronta como pedindo socorro.
É uma planta que parece não requerer trato, nasce tal qual mamona, em qualquer lugar. Já pensaram as nossas avenidas cobertas com esse manto atrevido e florido, que nem mesmo a constante limpeza dos garis consegue extinguir,e que evitará o corte da grama constante e caro?
Araguari voltaria a ter o sorriso de outrora, quando a conheci e me apaixonei.
Em tempo: já plantei o matinho florido em minha calçada – façam o mesmo, pode ser melhor que reclamar ao Bispo e ainda poderemos ter resultados surpreendentes. Tal qual aquele do efeito da vibração das asas de uma borboleta aqui e...
Semana que vem tem mais.
Helio Gomes é consultor ambientalista da Aca – Assoc. Cafeicultores de Araguari
heliogom@aca.com.br
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